sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resenha & Entrevista - Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais


Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais 
por: Marina Rodrigues 







Sinopse

Os cinquenta e quatro poemas deste livro foram frutos de todas as peripécias sentimentais de um coração que, ora acelera em arrebatamento, ora se tranquiliza em calmaria. O leitor é convidado a mergulhar nos batimentos e participar da montanha-russa emocional.

Gênero - Poesia
Páginas - 88




Você já conhece a carioca Bruna Tschaffon? Não, então deixa eu te apresentar ela. 23 anos, advogada e escritora, Bruna é o protótipo do poeta contemporâneo, digo isso pelo simples fato de que, em uma era cercada pela individualidade, ainda consiga sustentar sua profissão de porte, sua juventude e sua digníssima sensibilidade de poeta. Cantando como um trovador as suas dores e calmarias do coração, somos rapidamente sugados para dentro dos poemas de seu primeiro livro publicado "Meu coração é uma fábrica de arritmias sentimentais" — o segundo ainda está saindo quentinho do forno, Lítio, lançado dia 29 de Abril desse ano em Niterói, mal podemos esperar para lê-lo. 
       
        Bruna é única, mas ao mesmo tempo é todos, ela é única em seus sentimentos, mas escreve sobre o que todos guardamos no peito, o amor. Bruna conversa com o leitor com uma leveza de amiga, confidente, sentes-te mais do que acolhido em suas entrelinhas. Quem nunca teve um coração partido ou se sentiu sozinho em tempos de coração de pedra? Já diziam, "a arte imita a vida". 


         Seu português correto, seus versos bem divididos, seu vocabulário, seus temas relevantes, cada página que passa é algo que te cativa. 


              Também fizemos uma entrevista com a autora, ela foi uma fofa, espero que gostem de conhecer um pouco mais dela:

Blog com V: O que te inspira a compor?

Bruna: Pra escrever, eu me inspiro por sensações que eu vivenciei ou por idealizações e sonhos que eu nutro. Por mais que eu faça um exercício de imaginação, a escrita sempre é algo pessoal e intimista, um reflexo de quem escreve. 


Blog com V: Como é a tua mesa de escrita?
Bruna: Eu escrevo no meu laptop, mas não gosto de ficar muito tempo no mesmo lugar, então ando com ele pela sala, pelo meu quarto, pela cozinha... Não tenho um lugar específico só pra isso.


Blog com V: Tens um ritual para escrever?
Bruna: Eu gosto de escrever com fones de ouvido e escutando minhas musicas prediletas, pra não me desconcentrar.


Blog com V: Como você concilia profissão e escrita?
Bruna: É muito difícil. Eu deixo a escrita pro domingo e as minhas horas de descanso acabam todas se tornando em horas de produção literária. Mas é um sacrifício que pra mim vale muito a pena, já que é a minha paixão. 


Blog com V: Como você lida com ter que ter a frieza do tribunal e a sensibilidade do poeta?
Bruna: Que pergunta legal! É muito difícil mesmo, principalmente porque eu sou muito sensível e me envolvo muito com o lado humano, apesar de nem sempre deixar isso transparecer. Acho que talvez seja uma boa mistura, contudo. O mundo jurídico está a cada dia mais robotizado e em descompasso com o lado humano do ofício. Nós devemos ser a mudança que queremos ser.


Blog com V: Você começou a escrever com quantos anos e por quê?
Bruna: Eu comecei a escrever bem intuitivamente, aos oito anos. Escrevi um poema no meio da aula porque estava entediada e fui pedir pro diretor da minha escola publicar no jornal. A escrita sempre foi minha válvula de escape, uma fuga da realidade para extravasar meus pensamentos e sentimentos.


Blog com V: Como você se vê daqui a dez anos?
Bruna: Daqui a dez anos eu espero ser uma boa profissional, continuar a escrever e publicar livros e se Deus quiser ter uma família :)


Blog com V: Qual seu livro preferido?
Bruna: É um empate entre "O velho e o mar", do Hemingway e "As virgens suicidas" do Jeffrey Eugenides. 


Blog com V: Para quem você recomenda teu livro de poesias?
Bruna: Eu recomendo meu livro de poemas pra todos os que apreciem o gênero literário e pros que ainda não entraram em contato com o mundo da poesia. Poemas são o caminho mais rápido e certeiro pra atingir outras almas. A poesia me encantou desde que me entendo por gente e até hoje continua a me deslumbrar. Permitam-se descobrir esse encantamento também.


              A moça também é responsável pela coluna “Prosa pro café” da Folha do RJ. Não esquece de dar uma conferida nas crônicas dela, uma delícia de ler. Também não esquece de a acompanhar pelo insta, ainda vão vir muitas novidades dessa menina-mulher que só está no começo de uma carreira brilhante!






quinta-feira, 14 de abril de 2016

Jaz de cera



Jaz de cera
Por Caroline Moreira


Ela era feito giz de cera, desgastada nas mãos de amadores. Serviu de azul-turquesa, para o céu, embora não gostasse da forma como a esfregavam no papel. O amarelo-ouro coloriu o dia ensolarado, mas os raios causaram uma queimadura. Certamente, não se preocuparam. É só um giz de cera! Não existe forma de que isto o fira. Apontaram. A lâmina talhou em suas extremidades, modelando de acordo com o que precisavam no momento. Púrpura. Sem que precisasse cobrir alguma área em branco, fizeram-na sangrar até a última gota. As cores desbotaram e o giz, jaz. Nunca mais viu cor alguma.


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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Enclausurada



Enclausurada 
Por Marina Rodrigues

Ar logo falta em meus pulmões. As paredes parecem diminuir a cada passo descompassado que dou em direção à porta. Enclausurada. Engasgada. Enlatada como uma fileira de sardinhas, dessas que compramos em supermercados.         
Com um medo excessivo, irracional — que aumenta à medida que o tempo escorre por entre os finos nós de meus dedos trêmulos — caminho em direção à saída. É inevitável: devo desmaiar adiante.          
Pânico. Ansiedade. Taquicardia. Suor. Terror. Tremor — Claustrofobia.          
Começo a ver imagens dobradas e penso se não são os barbitúricos engolidos desesperados, no intuito de acalmar o fantasma da fobia que paira sobre mim.            

Morte, enfim. 

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terça-feira, 12 de abril de 2016



O Último Apito
Por Lika Akamatsu 


Esse sempre foi o momento que mais quis conhecer, apesar de temê-lo um pouco. Estudei toda a minha vida para salvar outras vidas e garantir que a maioria não chegasse a este ponto. Meus pulmões já não estão funcionando como deveriam, o sangue já não corre tão rápido pelos vasos sanguíneos, os impulsos nervosos também já estão ficando fracos, não sinto nada disso, entretanto, só imagino que esteja acontecendo isso. Aliás, talvez eu saiba o que está acontecendo em cada canto do meu corpo. Se isso é triste ou não, eu não sei bem...

Imagino ter mais uns vinte minutos de vida; talvez mais, talvez menos, já não sei estimar... É a primeira – e única – vez que vivencio isso, então acredito que tudo seja possível. Eu queria poder ver mais uma vez minha mulher, faz tempo que não a vejo... Ah, ela é linda. Espero poder sentir um último toque das mãos da minha filha; será que ela chega a tempo? Faz uns meses que não nos encontramos, ela faz pós-graduação noutro estado.

É estranho. As pessoas devem ter a imagem de um senhor não muito velho inconsciente, mas ora, estou conseguindo pensar comigo mesmo, talvez aquilo tudo que estudei sobre o corpo humano estivesse errado? Não preciso mais me preocupar... Quem sabe isso não seja um sonho, não dá pra afirmar nada, não estudei a morte em si, só como chegamos até ela. Depois disso nenhum médico pode dizer o que acontece. A medicina estuda a vida, afinal.

Queria poder acordar amanhã mais uma vez, mas agora já não tem mais volta... Se bem que faz tempo que não acordo de verdade. Talvez eu aproveite essa ida ao outro plano – se ele existe mesmo – para me desculpar com aqueles que não consegui salvar. Quem sabe eu não reencontro o Robertinho, que saudades desse velho! Lembro-me do quão arrasado fiquei com sua ida, senti-me culpado por não poder ir ao seu enterro. Aliás, não pude ir ao enterro de nenhum deles...

O mais aterrorizante é estar tão só nesse “universo particular pré-morte” e ao fundo ouvir os apitos do monitor cardíaco; se estivesse na sala de cirurgia e fosse um paciente na mesma situação, diria que estava bem, mas olhe só, já sei que vou morrer; será que meus pacientes já tinham essa certeza momentos antes também? Não sei quanto tempo passou, nem quanto me resta. Talvez pouco, os apitos estão vindo num intervalo menor...

Lembro-me da época de jovem, do colégio, da faculdade, das aulas de anatomia que tanto amava, do meu melhor amigo que passou a me odiar por eu ter ficado com a garota que ele gostava (e eu casei com ela!), do nascimento da minha filha, de alguns muitos pacientes, daqueles que não pude salvar, daqueles que se salvaram por eles mesmos e eu só ajudei, da primeira morte que presenciei...
Essa é a última...

O monitor daria o apito final...

Eu não pude sentir as mãos de minha filha mais uma vez, espero que a lenda de que o espírito sai do corpo seja verdade, quero me despedir devidamente das mulheres de minha vida. Gostaria de pedir perdão por partir tão de repente. Mas a morte é assim mesmo, eu aprendi. Silenciosa.
Agora.

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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Ópio


Ópio 
Por Marina Rodrigues e Raissa Tozzi


Mais um trago 
Outro gole
Voltou a escrever
O papel meio mole 
A vista meio turva
Tentava descrever
O poder daquela palavra 
Que fazia se fazia crua
Refletida na matéria prima bruta
Do ópio da alma


Vago nesta vaga solidão
Carregando fardos e ódio no coração
Inconsciente dos fatos
Dos fardos
Dos atos, tatos, olfatos, sensações


Doses cavalares de loucura
e homéricas de razão
Fundem-se nessa imensa escuridão
E vazio
Que carrego aqui comigo
No abismo
Da imensidão da alma


Frustrado e fodido
Com a esperança arrancada
Vago nu pelas ruas do acaso
As pálpebras queimadas pelo vento gélido
Bebericando em goles lentos
Saboreando
Entorpecendo
O temor que me desperta as palavras
Preciso domesticar meu demônio interior
Escrever me basta

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domingo, 10 de abril de 2016

Desculpe



Desculpe
Por Eduarda Gomes


Desculpe, não era para ser assim. Eu deveria ser imune. Deveria ter aprendido. Deveria ter entendido. Deveria estar bem agora – vendo um filme ou comendo pipoca. Eu deveria ouvir músicas e não me lembrar de você. Eu deveria não te reservar um espaço nos meus sonhos e um pouquinho de esperanças. Eu deveria não ler mensagens antigas e sorrir feito uma menininha que acordou na véspera de natal.

Mas é assim.

Sinto muito por ser tão masoquista – por errar e insistir no erro. Por ser tão eu. Por não conseguir. Por evitar. Por não dizer. Mesmo que não correspondido, sou uma cópia de coisas erradas; sou problemática. Sou in-amável.  Sou amadora. Sou incerteza. Sou vento – do tipo ruim. Sou as quatro horas da manha das crises existências.

Você é meio-dia ou duas da tarde quando tem bolinho de chuva. Você é dormir sem hora para acordar e ver filme com pipoca. Você é sol, é nuvem, é vitamina D.  Você é abraço apertado, corpo colado e calor corporal. Você é leve, pluma, azul, bolha de sabão. É fácil, é doce. É meigo. Você é como respirar.

E ela.

Ah, ela.

É arco-íris, aurora boreal, eclipse lunar, cine belas artes, floco de neve, brilho, mar. É sonho vívido, livro de faz-de-conta, canção de ninar. É complexa. É linda. É inconstante. Volta e vai. Sem parar. Ela é a escolha. Ela é desejo. Ela é uma espera de quem não se importa de esperar.

Ela não é o certo, e muito menos eu. Mas ela é o erro que você preferiu amar.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Logo nos encontramos


Logo nos encontramos
por Lika Akamatsu 


É assim mesmo, não posso mais nem pensar em te esquecer, porque já não sei como. Tu me confundes mais que Física, é mais complicado que ela; por que não podia ser como Matemática? É complicada, mas ao menos um pouco eu a entendo... Só que nem pra ser assim! Tu me deixaste perdida num limbo de sentimentos, dúvidas e problemas... E não posso mais negar, garoto, eu gosto mesmo de você. Mas eu devo me acostumar com a tua ausência, com monólogos monossilábicos, com um você invisível.
Pude te conhecer um pouco melhor, mas ainda sinto que existem imensidões a se descobrir sobre ti, e só com esse tantinho, posso afirmar que estranho seria se eu não me apaixonasse por você. Teu jeito tão peculiar e diferente é até um charme, as covinhas que se formam ao redor de um sorriso, então! Aliás, que sorriso! A feição aparentemente inocente contrasta com os traços masculinos bem marcados, com as mãos firmes, o olhar desafiador e o beijo fogoso.
Em alguns momentos, pego-me dividindo cobertores contigo, usando teus pés para aquecer os meus gelados, numa noite fria de inverno - ainda mais se for o inverno curitibano! Mas em segundos passa. É rápido e bem cômico. Tu me é tão misterioso que situações assim são inimagináveis e um tanto estranhas. Eu não te imagino de forma alguma, tu sempre me surpreendes, seja da forma mais simples possível. Isso! Surpreendente, você.
Se fosse definir-te em uma palavra apenas, ficaria entre "peculiar" e "surpreendente". Tu estás entre esses dois adjetivos. Talvez num limbo também...? Se estiver, vamos dividir os nossos limbos. Quero ficar um pouco mais com você, sem brincadeiras dessa vez. Não brinque comigo também. Deixa que eu me perca no teu abraço e perca-se no meu, logo nos encontramos, quem sabe. 


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domingo, 3 de abril de 2016

Estrela Decadente

Estrela Decadente
Por Caroline Moreira

           Ela tinha tantos sonhos quanto estrelas no céu, e cada constelação que descobria, eram vidas dispostas em um pedaço de papel. As figuras estampadas no telhado azul do mundo, não passavam de pontos cintilantes, assim, com algum tipo de descuido. Pareciam esquecidas pelo resto das pessoas. Mas cada vez que ela dava atenção por alguns segundos, não havia corpo celeste que ficasse mudo. Porém, o dia amanhecia e a garota se via perdida, um tanto sozinha. Ela passava a noite toda sonhando, e de dia não tinha sono. O seu travesseiro, no entanto, era abarrotado de sonhos.
           Às vezes, ela se sentia como se estivesse debaixo do seu cobertor, numa escuridão total, e ficava confusa se a noite era um véu sobre a cama do céu. Então, entre aquele sentimento que a prendia, sufocava, surgiu um ponto reluzente que a acompanhava. Ela tinha certeza de que os dias eram mais difíceis e obscuros que o anoitecer. Afinal, quando a noite chegava, ninguém enxergava o que ela escondia, ninguém via as lágrimas que inundavam os seus sonhos. Mas ela era uma poeira estelar, e cada vez que se debulhava em lágrimas, restava o pó e ela soprava. Brilhava feito estrela... Decadente.


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Estrela Decadente - SocialSpirit

sábado, 2 de abril de 2016

Menina do cabelo azul


 Menina do cabelo azul
por Marina Rodrigues
Seus olhos misteriosos, suas palavras curtas, seus olhares ilusórios, sua boca puramente puta e seus cabelos azuis, que escorrem pelos seus ombros nus, balançando, tremulando com o assobiar baixinho do vento frio que percorre minha espinha, tentando-me. A menina de cabelo azul que deixa meus dias mais coloridos. Tornou-se meu vício. 
Depois mudou para o rosa, a leve franja recém cortada tremulando com o passar do vento — eu o invejava por poder tocar sem pudor em minha menina. Ela sempre alterando minha existência monocromática. Eu era um mero espectador de seu espectro de cores.
Mas ela era como o rosa cálido que pinta o céu no primeiro avistar da manhã, eu era o azul pálido que pinta o céu no crepúsculo ao fim de tarde. Ela era uma artista! Transformando cada olhar em uma obra-prima. Eu era um alienista, transformando cada podridão da sociedade em dinheiro para o sistema capitalista. Como fazer o oposto me amar? 
Desejo-a e anseio por cada um de seus beijos, seus toques, sua pele nua, seus pêlos eriçados roçando pelo meu corpo. Desejei-a mesmo sabendo o nosso fim, mesmo sabendo que o equilíbrio entre nós não era uma opção, a balança estava desregulada, era o fim da minha paixão. 
Um dia ela entrou em minha vida e disse: 
— O problema é esse: você prefere ver a vida a teus pés e eu...eu prefiro ver em tons pastéis. 


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